Quem deve morrer com o Covid19

Texto de Augusto de Franco – www.dagobah.com.br

A hipótese de liberar todo mundo, para todo mundo ser infectado pelo vírus SARS-CoV-2 adquirindo anticorpos – morrendo os que têm que morrer e vivendo os que têm que viver – acaba com a epidemia mais rapidamente. Mas é moralmente e socialmente inaceitável.

Antes de qualquer coisa porque não sabemos quem tem que morrer. Uma pessoa idosa e com várias doenças crônicas comuns na idade avançada tem que morrer? Einstein, quando tinha 65 anos, tinha que morrer (ele só faleceu 10 anos depois)? E Bertrand Russell devia morrer quando tinha 80 anos (ele ainda viveu mais 17 anos)? Privar a humanidade dessas sobrevidas teria sido bom?

Da mesma maneira, aquele senhora idosa que vive na Rocinha ou no Jardim Ângela, diabética e semianalfabeta, porém sábia com o que aprendeu na escola da vida, pode morrer com 65 anos? E os conselhos que ela ainda poderá dar à sua neta, que serão fundamentais para ela se tornar, quem sabe, um expoente da pesquisa genética que ajudará, anos mais tarde, a estancar uma nova pandemia mortal para grande parte da humanidade?

A verdade é: nós não sabemos quem deve morrer e quem deve viver. População economicamente ativa é um conceito produtivista obtuso, herdado do mundo fabril dos séculos passados. E a população intelectualmente ativa? E a população politicamente ativa? E a população socialmente (e culturalmente) ativa? Pablo Picasso não era força de trabalho útil à economia (ou ao empresariado), logo tanto fazia se ele tivesse morrido com 75 anos (e não com 92)? Giuseppe Verdi compôs Otello em 1884 (com 74 anos) e Falstaff em 1893 (com 80 anos). Imaginem se ele pegasse um vírus mortal com 60 anos.

O que chamamos de humanidade é um simbionte social em prefiguração. Nessa holarquia fractal de seres interdependentes não há partes descartáveis. Cada pessoa é a humanidade inteira. Por isso temos de preservar a vida de quem pudermos preservar.

Um sistema que não preserva a vida de seus componentes não é um sistema social, mas antissocial.

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